Qualidade microbiológica de ervas e chás consumidos em um hospital público de Campina Grande – PB.

Karlete Vania Vieira, Debora Susam Alcântara, Juliana Brito Oliveira, Auriene Lopes Medeiros, Jacira Castro Lopes

Resumo


Em função do grande volume de comercialização e consumo de plantas medicinais na forma de chá para uso medicinal ou como bebida, estima-se que uma contaminação microbiológica deste produto possa representar risco para a saúde pública, devido às condições inadequadas de uso e armazenamento. Este trabalho avaliou a qualidade microbiológica das ervas Matricaria recutita (camomila) e Pimpinella anisum L. (erva-doce) e seus respectivos chás consumidos por pacientes, acompanhantes e funcionários de um hospital público do município de Campina Grande - PB. Os parâmetros microbiológicos analisados foram bolores e leveduras, coliformes totais, coliformes termotolerantes e Salmonella sp. Como resultado, verificou-se ausência de coliformes totais, coliformes termotolerantes e de Salmonella sp. e presença de bolores e leveduras na erva e no chá de camomila. Ausência de coliformes termotolerantes, Salmonella sp, bolores e leveduras no chá de erva-doce e presença de coliforme totais na mesma erva. Apesar da contaminação observada, as ervas e seus respectivos chás apresentaram-se adequados para o consumo.

Palavras-chave: Plantas medicinais, Saúde pública, Microrganismos, Chá.

 

Abstract

Microbiological quality of herbs and teas consumed in a public hospital in Campina Grande - PB. This study was designed to assess the microbiological quality and fungal herbs: Matricaria recutita (chamomile) and Pimpinella anisum L. (fennel) and their teas consumed by patients, caregivers and staff of a public hospital in the city of Campina Grande - PB. Microbiological parameters analyzed were yeast and mold, total coliforms, fecal coliforms and Salmonella sp. There was the absence of total coliforms, thermotolerant and Salmonella sp. and the presence of yeasts and molds in herb tea and chamomile. Absence of fecal coliform, Salmonella, molds and yeasts in the fennel and presence of total coliform in the same herb tea. Despite the contamination observed, herbs and their teas had become suitable for consumption.

Key words: Medicinal Plants, Public Health, Microorganisms, Tea.

Qualidade Microbiológica de ervas e chás de um hospital público de Campina Grande – PB.

 

Introdução

Devido ao seu baixo custo e o acesso facilitado pela população, as plantas medicinais tem sido usadas como recurso terapêutico em todo território nacional. Segundo Marodin e Baptista (2001), podendo ser usados como alimentos, as ervas utilizadas na preparação de chás são passíveis de contaminação microbiana, podendo ocasionar perda dos princípios ativos e causar danos à saúde. Os microrganismos contaminantes são normalmente provenientes do solo, da água e do ar (MARCONDES, 2010). Segundo Santomi et. al. (2005), pode ocorrer ainda contaminação secundária devido às práticas inadequadas de cultivo, armazenamento e processamento.

 Dentre os principais microorganismos encontrados em ervas estão a Escherichia coli, que pertence ao grupo das bactérias coliformes, é empregada como indicadora de poluição de origem fecal desde 1892 (REINHARDT, 1984). Algumas cepas desta bactéria são enteropatogênicas, muito tóxicas e têm sido identificadas, de forma crescente, em vários surtos de grande gravidade (LEITE et. al., 2002). A Salmonella sp. está mais relacionada em contaminação de alimentos de origem animal, porém, surtos de salmonelose foram associados a alimentos de origem vegetal, devido à utilização de estercos de aves para adubação configurando falta de boas práticas na manipulação e higiênicas (JAY, 2000).

Os fungos também são potenciais inimigos dos alimentos, principalmente os secos armazenados, como os chás, que devido sua característica de absorver umidade, facilitam o seu desenvolvimento. Estes podem ser dispersos pelo ar atmosférico, contaminando as plantas, antes e após colheita, como também durante o processamento (CORRÊA et. al., 2004). A contaminação microbiológica nos chás pode resultar em riscos para a saúde de quem os consome. Sendo assim, este trabalho destinou-se a avaliar a qualidade microbiológica de ervas como a Matricaria recutita (camomila) e Pimpinella anisum L. (erva-doce) e seus respectivos chás consumidos por pacientes, acompanhantes e funcionários de um hospital público do município de Campina Grande-PB.

 

Metodologia

 As amostras foram coletadas em um hospital público de Campina Grande e os experimentos conduzidos no Laboratório de Microbiologia da Faculdade Maurício de Nassau, no período de julho a setembro de 2013. Foram analisadas quatro amostras, uma da erva camomila e outra da erva-doce e uma de seus respectivos chás. Cada análise foi realizada em duplicata e tirada a média aritmética de seus resultados. Foi coletada 500 g de cada erva e 500 ml de cada chá, os quais foram acondicionados em sacos de polietileno estéreis e em frascos de vidro com tampas devidamente estéreis, respectivamente, transferidos em caixas de isopor com gelo para o laboratório, para análise. As ervas foram coletadas dos recipientes onde eram armazenadas e os chás diretamente das panelas de onde eram servidos.

Alíquotas de 25 ml de cada chá foram transferidas para 225 ml de solução salina estéril, obtendo-se a diluição de 10-1 e a partir desta efetuou-se as diluições decimais seriadas até 10-5.

Para as ervas, 25 g de cada foram individualmente pesadas e maceradas no gral com pistilo, em seguida foi adicionada em 225 ml de solução salina estéril e homogeneizadas por 60s, obtendo-se a diluição 10-1 como também as diluições decimais seriadas até a 10-5.  Para análise fúngica, alíquotas de 0,01 ml de cada diluição das amostras foram semeadas em placas de petri com meio Ágar - Saboraud acrescido de cloranfenicol pelo método de plaqueamento em superfície com a alça de “Drigalski”. As placas foram incubadas a 25°C por 5 dias e foi estimado o número de Unidade Formadora de Colônia por grama (UFC/g)  de acordo com British Herbal Medicina Association (1996).

Para determinação de coliformes totais e termotolerantes, inicialmente foi utilizado o teste presuntivo, onde foram inoculados 1 ml de cada diluição (10-1 até a 10-3) em séries de 3 tubos (cada) contendo 9 ml de Caldo Lauril Sulfato Triptose (LST) com tubos de Durhan invertidos, incubados a 35°C por 24/48 h.  A partir dos tubos com produção de gás foram transferidas alçadas para tubos contendo tubos de Durhan invertidos, contendo 9 ml de Caldo Verde Brilhante-Bile (VB) para análise de Coliformes Totais e 9 ml de Caldo E. coli (EC) para análise de Coliformes Termotolerantes/E. coli. Os tubos VB foram incubados em estufa a 35°C por 24/48 h e os EC a 44,5°C por 24 h em banho-maria. A partir dos tubos com produção de gás foi obtido o Número Mais Provável (NMP). Para verificação de Salmonella sp. foi semeado 1 ml do caldo Verde Brilhante em caldo de enriquecimento tetrationato e deste, uma alçada para uma placa contendo ágar Salmonella-Shigella (SS) espalhada por estrias e incubado à 35°C/24 h.

Resultados e Discussão

            O resultado das análises encontra-se na Tabela a seguir.

Tabela 1: Análise microbiológica de ervas e chás preparados e servidos em um hospital público de Campina Grande-PB.

Espécies Vegetais

Bolores e Leveduras (UFC/g)

Coliformes Totais (NMP/g)

Coliformes Termotolerantes (NMP/g)

 

Salmonella sp. em 25 g

 

Matricaria recutita (camomila)

 

Erva-3,5 x 102

 

Chá- 1x102

 

Ausente

 

Ausente

 

Ausente

 

Ausente

 

Ausente

 

Ausente

 Pimpinella anisum

(erva-doce)

 

Erva– Ausente

 

Chá - Ausente

 

46

 

Ausente

 

Ausente

 

Ausente

 

Ausente

 

Ausente

 

De acordo com a Tabela 1 houve contaminação fúngica tanto da erva quanto do chá de camomila e ausência de contaminação para as demais categorias de microrganismos analisados. O processo de decocção apresentou menores índices na redução das unidades formadoras de colônias das amostras. Segundo Araújo & Ohara (2001), esse método reduz a carga microbiana, no entanto, dependendo do grau de contaminação inicial da matéria-prima, esse processo pode não ser efetivo. Esse resultado também pode ser explicado pela possível ausência de óleos essenciais com atividade antifúngica na camomila. A especificação da OMS é de no máximo 5,0 x 104 UFC/g para materiais vegetais destinados ao uso na forma de chás e infusões e de no máximo 5,0 x 10³ UFC/g para uso interno (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 1998), estando, portanto, dentro dos limites especificados. Estudos de SILVA et. al. (2009) analisaram cinco amostras secas de camomila oriundas do Paraná e observaram resultados de bolores e leveduras variáveis, dentre as quais, uma estava no limite de aceitação da contagem de bolores e leveduras e uma estava fora dos valores preconizados pela OMS.

Para a erva-doce não houve contaminação fúngica nem na erva nem no chá, entretanto observa-se uma leve contaminação por coliformes totais na erva, essa carga microbiana (46 NMP/g) é inferior àquela exigida pela OMS, que é de no máximo 1.100 NMP/g, a ausência de coliformes termotolerantes em todas as amostras analisadas, implica em afirmar ausência do principal componente deste grupo, a Escherichia coli. A erva-doce possui óleos essenciais em sua composição com ações antissépticas o que pode explicar a ausência de contaminação microbiana. E a leve contaminação na erva e ausência no chá pode ser explicada pela aplicação de tratamento térmico no preparo da bebida, o que possibilita a redução e/ou destruição da carga microbiana. Contaminação alta foi observada por BUGNO et. al. (2005), eles concluíram que cerca de 92% das 65 espécies vegetais estudadas por eles, na cidade de São Paulo, estavam em desacordo com um ou mais parâmetros microbiológicos.

Ambas as ervas não apresentaram contaminação por coliformes termotolerantes e Salmonella sp., os quais segundo a resolução vigente RDC n°12 de 2001 são os únicos parâmetros microbiológicos que devem estar dentro do padrão.

Conclusão

De acordo com os resultados encontrados, observou-se que as ervas camomila e erva-doce e seus respectivos chás, encontravam-se adequados para o consumo, portanto, não oferecendo riscos a saúde dos pacientes, seus acompanhantes e funcionários do hospital.


Palavras-chave


Plantas medicinais, Saúde pública, Microrganismos, Chá.

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Referências


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