DO ARREPENDIMENTO ENLOUQUECIDO

Autores

Palavras-chave:

Kierkegaard. Fé. Possibilidade ideal. Angústia. Angústia mortal.

Resumo

Neste escrito, que busca edificar aquele que se achega, mergulharemos na forma paralisante e ilusória do arrependimento presente em O Conceito de Angústia, de Kierkegaard: o arrependimento enlouquecido. Este arrependimento consiste em nosso vão e decadente costume de brigar contra a vida, supondo que esta deveria e poderia ser diferente do que foi. Ana Prado ilustra dizendo que, em sua horta, ela plantou um pé de se, mas nunca nasceu. Tal arrependimento – aquele que não se converte na liberdade do indivíduo, não podendo anular o pecado, mas somente lamentar por ele – não é capaz de ultrapassar o instante mortal da angústia, fazendo morada neste estado. Ao longo do desenvolvimento restará claro que este hábito provém de não nos deixarmos formar na angústia pela fé. Mas que é a fé? Usualmente a horda se refere à fé como uma convicção de que coisas da vida ocorrerão conforme se deseja. Neste trabalho, todavia, a fé será pensada como um olhar existencial que, no húmus do humano, se afina com a própria realidade. Nesta fé – caminho transcendente do desesperado para a liberdade do perdão (travessia da doação) –, há a desistência de uma existência viciada na plantação de pés que não nascem. Isto é, abandonando a interpretação lamentosa para com o passado e o presente, bem como desistindo de temermos o futuro, é que podemos saltar para uma reexistência que decide acolher incondicionalmente (e com gosto) a existência. Aqui, então, atravessaremos este caminho do indivíduo desde o arrependimento enlouquecido até a metanoia (verdadeiro arrependimento).

 

DOI: https://doi.org/10.29327/2194248.6.1-9

Biografia do Autor

Ciro Prado Pellegrini Villela, Instituto de Psicologia Fenomenológico Existencial do Rio de Janeiro, Brasil

Psicólogo e Psicoterapeuta fenomenológico-existencial, coordenador do grupo de pesquisa Margem Kierkegaardiana do Laboratório de Fenomenologia e Estudos em Psicologia Existencial - LAFEPE/UERJ. É especialista em Filosofia (UNESA). Possui formação e especialização concluídas em psicologia clínica na perspectiva fenomenológico-existencial (IFEN). Nos últimos anos se dedicou, em grupos de estudos, à leitura de Kierkegaard, Martin Buber, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Nietzsche, Heidegger e Fernando Pessoa. Tem, também, interesse singular na Filosofia como modo de vida, em psicologia analítica, nas literaturas brasileira e russa, nos filosofos da physis, mitogonia ameríndia, mitologia grega, literatura mística oriental e ocidental, textos sagrados e na produção de crônicas e contos.

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Publicado

2024-03-30

Como Citar

Villela, C. P. P. (2024). DO ARREPENDIMENTO ENLOUQUECIDO. REVISTA INSTANTE, 6(1), 121–133. Recuperado de https://revista.uepb.edu.br/revistainstante/article/view/3292